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Era Ela.

Rita de Podestá

Conto candidato FICÇÕES VINTE

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Entre chopps e papos, pessoas esfumaçadas, garçons desanimados, casais, turmas, mesas altas e baixas e tralhas na parede, lá estava ela. No seu brilho colorido, cansada por sustentar tanto conteúdo de vida e por ser tocada diariamente por estranhos e com gostos peculiares. Já foi um dia atração. Nos seus tempos de glória, não havia nada igual, era única e garantia a diversão por toda a noite. Hoje, é um reles objeto, jogada aos cantos e presa apenas ao seu eclético canto. Mas nem deste dom possui controle, não escolhe, apenas espõe seu repertório para que este, seja domínio, não totalmente público, mas de quem pode pagar – pouco. Não é um caso único, certas atrações, outrora tão requisitadas, rapidamente se transformaram em casos obsoletos. Parace que tudo cria e recria-se rápido demais e os sonhos se alteram em decorrência de novos e oscilantes desejos. Ela sabe. Sabe que seus dias estão contados, que é quase que digna de ser exposta em um museu. Mas neste lugar, no qual possui um espaço, mesmo que pouco valorizado, tenta diariamente ser mais do que aquela que enfeita. Grita no seu tom mais afinado, que quer ser livre para cantar o que quiser. E mais, quer ser escutada, não é justo requisitá-la para logo depois esquecer, desprezar. Ela é bela, tem luz, cor, vida e, principalmente, história. É poliglota, viajada, um eterno dicionário musical. Tantas pessoas conhece, sabe um pouco de cada uma, pelo gosto, pelo toque. Mas não sabe viver sozinha, precisa de cada um desses forasteiros que a sustentam, mesmo que por pena ou mera curiosidade. Precisa do outro, outros e outrem. Cansou, mas não descansa. Entre pausas, sussuros e barulhos estridentes, ela resurge. Mas não adianta mais, sua vez se foi, sua fama acabou. Outras como ela existem, aos montes. Algumas mais modernas, adequadas ao dia de hoje, novidades. Ela não, é figurativa, de época, ultrapassada - atraente sim, porém antiquada. O som de hoje é muito mais alto do que seu fino canto permite. Só lhe resta mesmo a esquina do canto do bar e o som alegre entre um e outro curioso. Afinal, seria ela, uma cantora de cabaré ou antiga junkbox?