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Grotas Gretadas sem Gotas Caídas

V. Linné

Conto candidato FICÇÕES VINTE

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Eu aguardo, feito nordestino, que caia chuva em meu sertão. Há dias estou aqui, seco, hirto, olhando nuvens com cobiça santa e gula nova. Só uma gota, uma gota despencada do olho me salvaria a vida e me mataria a sede. Uma gota me mataria. Uma gota me salvaria. Sede, eu tenho a sublime sede de choro. Meus olhos incham e ardem e se avolumam e turvam o mundo, mas não choram, são olhos duros, sujos, secos e gretados. Feito retirante, eu não sei o que fazer com a vida que fica, murchando, torrando no sol que arde. Sem chorar eu não consigo lavar a terra para ver se há mudas em algum lugar. A água é santa e qualquer lágrima é bálsamo. No entanto, há esqueletos meus por todos os lados, vidas que morrem enquanto não chovo. Eu apóio baldes nos cantos da casa, espalho bacias para amparar as goteiras, cavo valetas em torno de mim. Porque quando chover... Quando chover haverá enchentes. Jogo sal no céu, mas nada. Só o sol ardendo no enorme manto azul-esbranquiçado. Os mandacarus sem flores, o vento sem correr morro abaixo, o inchu sem abelhas, o jucá sem frutos, a algaroba sem baba e a tacaca sem botar os rebentos pra fora. Esse mês, seu moço, não chove não. Esse mês não chove e que faço eu de tanto choro represado, de tanto sentimento trancado, de tanta nuvem encardida aqui dentro? Espero. Espero para poder dar água pro meu sertão. Só torço para que, quando chover, a água ainda tenha o que salvar.