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- 54 O azul dos necrotérios.
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Não Prometa o que Pode Acontecer!
Maycon Batestin
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE."I Hate this"
“Parece meio alto aqui, não?” Comento para o paraguaio que, com um sorriso muito suspeito no rosto, retribui-me com a sinceridade de um verdadeiro alpinista; “só uns três mil pés”. Então assim, enquanto sentia o sangue congelar nos vasos sanguíneos e, antes que eu desmaiasse por falta de oxigênio no cérebro, resolvo, por ventura, olhar para baixo uma última vez, na tentativa de encontrar algum conforto nessa justificada loucura. Alto. Muito alto. A visão trêmula e embaça. Vejo vários pontinhos pretos num ponto gigantesco de branco, e lembro acidentalmente de fátidas piadas sem graças, do estilo “o que é que é um pontinho preto no chão?”. Rio para não chorar. E é aqui, que entre essas visões embaçadas e o terrível pânico de que vou acabar morrendo, que percebo que, talvez, só um talvez, não fosse uma boa ideia fazer aquela promessa. Eu nunca fui, realmente, um poeta do tipo que promete as coisas. Tudo o que eu sempre apostava, eu perdia. Ainda que não fosse o suficiente, todas as promessas que eu fazia, tinham a estranha mania, de se revoltarem contra mim. Sabendo dessa índole, há dois anos atrás, tendo aparentemente sofrido com um pensamento que, por súbita intuição de derrota, maquinou uma promessa na qual, se acaso, o livro em que eu estava trabalhando, ganhasse os ares de uma livraria da cidade, teria que escalar a Cordilheira dos Andes, no Chile, com ajuda de um paraguaio. Tudo isso, graças, a um pequeno filme de sessão da tarde, “Vivos!”, que esse poeta assistia, enquanto buscava uma rima fácil para a palavra “idiota”. Nesse ponto da história, vocês já sabem o final, o problema é que eu, há dois anos atrás, podia jurar que passaria o verão de 2009 desfrutando de um tédio prazeroso proporcionado pelo sofá de minha casa. Mas é ledo todo engano. Três meses após ter terminado o livro, corro atrás de patrocínios que pudessem viabilizar o projeto gráfico. Era um orçamento simples. Não chegava nem a mil reais. 200 tiragens, 150 páginas, capa colorida, papel alcalino de alta alvura, 75gr, etc... A primeira opção, obviamente, era a prefeitura e suas leis de incentivo a cultura. Infelizmente, para meu azar poético, a prefeitura da minha cidade é semelhante a da terra do nunca com a doutrina baseada na filosofia “nunca crescer”, e de quebra, como se a metáfora já não bastasse, ainda fica brincando de piratas, enquanto o navio afunda. Com a terrível notícia de que não havia verba para viabilizar meu projeto – discurso decorado pela secretaria eletrônica do gabinete da secretária de cultura – busquei abrigo nos advogados e manda-chuvas da cidade que, por um sinal divino, acreditavam que eu era a próxima derrota artística da história da humanidade, e mandaram-me, então, para o quinto dos infernos com um mapa para não se perder no caminho. Tomado por uma ira tão brava que apenas um poeta, após séculos de escrita, pode expressar com um amontoado de palavrões sonoros que ressoam como a trombeta de um anjo do apocalipse, tento em vão, rasgar a copia original impressa de meu livro. Por fim, acabo quebrando os punhos e ficando sem digitar nada por longos seis meses. Enquanto clareava minha cabeça com o conforto de saber que jamais escalaria uma Cordilheira dos Andes, eis que recebo por correio, um contrato com uma editora paulista que, pela glória dos esquecidos, havia comprado meu livro em um leilão virtual, um desses que você desconfia, cegamente, ser um trote da internet afim de clonar seu cartão de crédito e te mandar para receita federal com uma suspeita de cinco milhões de dólares não declarados em sua conta bancária. Inicialmente, desconfiei de ser uma intimação da justiça pedindo para comparecer em algum dia para responder pelo crime de “xingar” em praça pública, entretanto, a medida que meus olhos foram confirmando meu nome, o nome da editora, o nome da obra, a desconfiança foi substituída violentamente por um grito de alegria semelhante ao que as crianças propagam quando descem de um tobogã de quinze metros em um parque aquático; “yahooooooooooooooooooo!”. Trabalhando incessantemente para fazer todos acreditarem que a carta era verdadeira e que eu não havia escrito no computador, falsificado a logomarca da editora, e inventado termos e clausuras, consegui, no fim daquele ano, publicar a minha tão inestimável obra. Lógico que não vendeu nada e continua acumulando poeiras em alguma livraria da cidade, mas recebeu ótimas críticas no dia de seu lançamento e só pelo fato de alcançar meu objetivo, valeu todo esforço pelo qual passei. Contudo, dias depois do seu lançamento, uma estranha ficha de consciência, desperta na memória, a lembrança de uma promessa estúpida feita enquanto assistia televisão tentando uma rima para a palavra “idiota”. Ironicamente, encontro a palavra perfeita, na exclamação em pensamento; “droga!” Não só a palavra, como também toda a oração; “droga, agora tenho que começar a correr atrás de um alpinista paraguaio”. E foi assim, que cheguei aonde cheguei. E olhando para baixo, desafiando a lei da gravidade, e a desconcertante vertigem, percebo que, talvez, por uma súbita leviandade de dúvida, não deveria ter feito nenhuma promessa, pois as coisas tendem a funcionar, quando deveriam dar erradas. Fim




